Livros [s]em critério

Crítica literária, construtiva quanto e quando possível.

The Catcher in the Rye

November 19th, 2008 by Tim James Booth

I was only thirteen, and they were going to have me psychoanalyzed and all, because I broke all the windows in the garage. I don’t blame them. I really don’t. I slept in the garage the night he died, and I broke all the goddam windows with my fist just for the hell of it.

- J. D. Salinger, The Catcher in the Rye

The Catcher in the RyeThe Catcher in the Rye é um dos grandes clássicos norte-americanos do século XX e, provavelmente, o maior grito de revolta adolescente de sempre. Jerome David Salinger escreve aquilo que - magistralmente, diga-se - muitos de nós sentimos quando eramos adolescentes - se é que alguma vez deixamos de o ser ou sentir - e que se tornou num dos mais vendidos livros de sempre. Li-o no original inglês e aconselho, se puderem, a fazer o mesmo. Mais à frente perceberão porquê.

Holden Caufield é um adolescente problemático. Não porque seja mal-educado, mal comportado, ou simplesmente burro, mas porque não se consegue inserir na sociedade onde é forçado a viver. A história começa com mais uma expulsão de Holden de um colégio, - já perdeu as contas ao número de colégios que frequentou - o internato de Pensey, porque está prestes a chumbar a practicamente todas as suas cadeiras, com a excepção de Inglês. Holden, após uma discussão com o seu colega de quarto que tinha acabado de chegar de um encontro com uma das melhores amigas de Holden, decide sair de Pencey antes da data suposta e viajar para a sua cidade natal de New York. Sabia que se chegasse a casa antes da data em que os pais o esperavam teria de enfrentar a fúria deles, então preferiu esperar que eles fossem informados pela carta oficial da escola e ir para casa apenas quando fosse suposto ir. O livro conta as deambulações do jovem revoltado, enjoado aliás, pela cidade de New York durante os três dias em que não quer chegar a casa. Nesses dias ele encontra freiras com quem simpatiza, toma uns copos com um velho amigo, tem um encontro com uma antiga paixão, e faz tudo por tudo para conseguir falar com a pequena Pheobe de dez anos, a sua irmã mais nova e a ligação familiar mais forte, sem os pais descobrirem. Holden tem uma família peculiar, para além da irmã com quem tem um laço especial, tem um irmão mais velho, D. B., que é argumentista em Hollywood, e um irmão que morreu em criança, Allie, e cuja morte afectou-o intensamente. Holden tem uma visão muito depreciativa da vida e dos que o rodeiam, practicamente toda a gente é falsa e ele é incapaz de conseguir encontrar algo de que goste verdadeiramente na vida, além da irmã, o que o descarrega numa espiral depressiva e quase suicida. Holden tem também uma ambição curiosa, quando Pheobe lhe pergunta o que é que ele gostava mesmo de fazer mais tarde, ele responde que se imagina num campo de centeio à beira de um precipício, a tomar conta de crianças que lá brincam, impedindo-as de cair no abismo, um Catcher in the Rye, se quiserem.

O livro é surpreendentemente actual e é, de certa maneira, assustador pensar que as angústias adolescentes dos anos cinquenta são as mesmas de agora - com a diferença de que não são estupidificadas ou banalizadas, antes vistas de um prisma pessoal, pelo olhar certeiro de um adolescente fora do comum. Impossível, para mim pelo menos, não me rever em Holden quando era mais jovem, a total incompreensão das pequenas questõezinhas do mundo suposto adulto que me pareciam, e continuam a parecer, completamente falsas, desprovidas de significado e sinceridade.

A maneira como a desilusão de Holden é transmitida é abismal, como ele sentimo-nos sem saber muito bem para onde ir numa cidade tão grande como New York, e procuramos distrairmo-nos com questões infantis, Holden parece empenhado em descobrir o que acontece aos patos do Central Park quando chega o Inverno.

Todo o livro é um grande grito de ajuda, as páginas parecem gritar a questão das questões, qual é o sentido da vida, e obrigam o leitor a juntar-se ao coro. É uma terrível busca de significado e caminho, figuradas nas deambulações de um jovem perturbado pela morte do irmão nas ruas da Big Apple.

É muito curiosa a maneira como Salinger decidiu escrever o texto. Encontramos um vocabulário extremamente reduzido porque, como o próprio Holden admite, a extensão das suas palavras é curta. É uma escrita que transporta practicamente na perfeição o estilo coloquial do inglês norte-americano dos anos cinquenta, “Boy. I say boy a lot.”, “Helluva time”, “Goddam”, “Chrissake” e outras expressões são aos milhares ao longo do texto o que, por incrivel que pareça, não afectam a leitura de modo algum, antes pelo contrário, são capazes de nos emergir na 5th Avenue, no meio do trânsito, no Natal de 1951.

Salinger escreveu uma obra prima da literatura juvenil que urge ser lida por todos. Pergunto-me se não será até mais urgente que os adultos conheçam Holden Caufield. Para os adolescentes pode ser o sinal de que não estão sós e para os mais velhos um lembrete para refrear a falsidade em que constantemente são obrigados a mergulhar.

Os Três Desejos de Octávio C.

November 18th, 2008 by Tim James Booth

Com licença - eu tive um avô americano. Chamava-se Opkinson, mas durante a infância chamei-lhe sempre Óbinsão, ou uma caterva de nomes inverosímeis, palavras inglesas que eu adaptava conforme podia.

- Pedro Eiras, Os Três Desejos de Octávio C.

Os Três Desejos de Octávio C.Mais um novíssimo livro practicamente acabado de chegar ao mercado editorial português, passa também pelas minhas mãos. Desta vez foi Pedro Eiras, jovem dramaturgo, ficcionista e ensaísta português, que escreveu Os Três Desejos de Octávio C.. Pedro Eiras é sem dúvida um dos nomes a reter, se já não o foi, uma vez que ganhou, em 2006, o Prémio Pen Clube Português do Ensaio com a sua obra Esquecer Fausto. A fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol.

Os Três Desejos de Octávio C. são isso mesmo - os três desejos que um jovem funcionário público, altruísta, ou assim ele pensava, pede a um génio de uma lâmpada que o seu falecido avô lhe enviara. O livro começa precisamente com o excerto acima, uma frase que considero uma brilhante abertura, onde Octávio conta como era a relação com o seu estranho avô e como a lâmpada lhe vem parar às mãos. Octávio adormece e o génio aparece-lhe em sonho - para evitar complicações, segundo explicações do próprio - e concede-lhe os tradicionais três desejos que, no entanto, não podem ser realizados todos ao mesmo tempo mas com pelo menos vinte e quatro horas de intervalo. Como todos, Octávio pensa primeiro em desejar para si próprio, o génio chega até a incentivá-lo a pedir o amor de uma colega de trabalho, a frágil Anabela. Mas Octávio acaba por considerar isso demasiado egoísta e prefere fazer uma lista com desejos que considera de superior interesse para a humanidade - embora lhe pareçam mais fazer parte de uma redacção da escola primária. Pede o primeiro desejo e no dia seguinte vê as nefastas consequências do pedido que, julgava ele, seria bom. No entanto mantém a lista e na noite seguinte deseja o segundo item, e o mesmo na noite terceira. O pobre homem não imaginava as consequências que tão simples pedidos poderiam ter na humanidade.

O livro está carregado de simbolismos - vejamos por exemplo o emprego de Octávio, que trabalha nos divórcios de uma conservatória. Conservatória essa que está localizada na rua das Parcas, as mesmas que na mitologia teciam a vida e a morte, e que tem a secção dos óbitos escondida das outras secções, mais alegres por assim dizer. E claro, a secção da morte está obviamente regida por um velho que conhece a vida, o Sr. Honório, que acredita que o futuro já está escrito no passado e que cabe à humanidade lê-lo e adaptá-lo para não repetir os erros. A crítica está também bem clara, aliás, todo este livro é, permitam-me a redundância, um livro aberto nos seus propósitos. Enquanto o mundo entra em colapso, ouvem-se entrecortadas nas notícias aterradoras, o Vaticano a apelar à calma. Apenas.

A tese que embrulha a história é clara e irónica: não adianta fazer nada pela humanidade. Ou completando e retirando a ironia, não adianta tentar fazer nada pela humanidade se não conseguirmos fazer nada por nós próprios. Octávio acaba por perceber que os seus supostos desejos altruístas não eram assim tão altruístas quanto isso porque se baseavam nos seus próprios medos.

O que não funciona muito bem, na minha opinião, no texto são as constantes citações dos meios de comunicação - uma vez que a narração é feita na primeira pessoa, num discurso triste e quase patético do pobre Octávio, as citações soam a um meio fácil de fugir aos problemas que uma citação indirecta, por parte do personagem, poderia trazer, ou seja, se Octávio narrasse as notícias que via na televisão ver-se-ia forçado a reflectir sobre elas. Além do mais, são demasiado extensas e soam irreais enquanto notícias, o que acaba por distrair o leitor do resto da narrativa. Talvez a intenção tenha sido não levar Octávio a reflectir sobre os seus desejos mas antes levar o leitor a fazê-lo - nesse aspecto funciona. Mas o que se ganha em interacção perde-se em beleza literária. Também todo o imaginário do génio da lâmpada mágica não me atrai muito - mas isto trata-se apenas de um gosto pessoal que em nada prejudica a história e a mensagem.

O que eu não gosto, de todo, é do pormenor do asteróide. É um pormenor, de acordo, mas que tira seriedade a história, que apesar da leveza da linguagem é grave, e, não sei bem porquê, o seu nome, XB-43, remete-me para o imaginário do Tintim, o que, por alguma razão, não liga muito bem com génios em lâmpadas para mim.

Nota-se uma certa influência Saramaguiana ao nível da temática e do enredo, ou seja, um funcionário burocrático tem a hipótese de mudar a história e a humanidade (Todos os Nomes, História do Cerco de Lisboa) e de Gonçalo M. Tavares ao nível da linguagem, clara e, no entanto, bela (apesar de aqui as minhas conclusões se basearem mais na obra anterior de Pedro Eiras do que da simples análise deste texto).

Os Três Desejos de Octávio C. é um livro ambicioso na temática e talvez por isso saiba a pouco quando se chega ao fim. Era de esperar uma obra de maior fôlego para tratar uma questão desta dificuldade. Ou talvez também aqui se esconda a mensagem do autor, não duvido que seja deliberado, que reafirma até pela estrutura externa da história, de que a vida é mais simples do que se pensa e complicada de mais para se tentar mudar. Os Três Desejos de Octávio C. não são mais do que os desejos da humanidade - a humanidade é que talvez já se devia ter apercebido que isto não vai lá com desejos.

A Viagem do Elefante

November 12th, 2008 by Tim James Booth

No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que mais vale ser romancista, ficcionista, mentiroso. Ou cornaca, apesar das descabeladas fantasias a que, por origem ou profissão, parecem ser atreitos.

- José Saramago, A Viagem do Elefante

A Viagem do ElefanteDe viagem, e não mais do que isso, trata o novo livro do Nobel da Literatura português. A data de lançamento do livro não será alheia ao facto de se comemorarem dez anos sobre o mês em que foi anunciado o nome de Saramago para o prémio, que se lembrou no passado mês de Outubro com numerosas reedições e promoções sobre as antigas edições do autor, nem à estreia nas salas portuguesas da adaptação ao cinema por Fernando Meirelles do Ensaio Sobre a Cegueira que acontece depois de amanhã. Não será, certamente, o livro alheio a isto mas a história é. E, como comecei logo por dizer, a história não é mais do que uma viagem. Uma longa, não tão longa assim, viagem.

E aqui, logo após uma pequena introdução ao livro ou ao autor ou ao motivo que me moveu a ler determinada obra, tenho por costume dedicar umas quantas linhas à curta sinopse do enredo. O que neste caso me está a causar celeuma é que as linhas serão ainda mais curtas do que o habitual, e daí este introdutório anormal, porque história tão simples é difícil de encontrar. Talvez por isso o próprio autor se recuse a qualificar A Viagem do Elefante como um romance, preferindo a designação mais modesta, ou não, de conto.

Algures pelo século XVI, e aqui começam as dúvidas, é isto um livro de características históricas ou não, digo-vos eu que não, não é, os factos verdadeiros, ou assim descritos pelos documentos que aos dias de hoje, não encheriam nem uma página, nas palavras do próprio Saramago, dizia eu que algures no século XVI, D. João III de Portugal decide presentear o seu primo Arquiduque Maximiliano da Áustria com um elefante indiano que estava há dois anos em Lisboa, vindo de Goa. Feitas as necessárias diligências burocráticas, elefante e restante comitiva, não esquecendo, é claro, o seu tratador, o cornaca Subhro, partem para Figueira de Castelo Rodrigo onde será entregue à comitiva austríaca que aí o iria receber. Em terrenos espanhóis, até Vallaidolid, uma escolta luso-austríaca acompanha o paquiderme à presença real para este ser entregue ao novo dono que estava, até aquela data, em Espanha. Os portugueses voltam à pátria com a sensação de dever cumprido, e Subhro, que agora se chamará Fritz a mando do Arquiduque, tal como Salomão se passará a chamar Solimão, mais os Arquiduques e restante séquito atravessam a Europa em direcção à Viena de destino. Isto é o enredo e, como se vê, não é mais do que uma viagem de um elefante, como tão bem está descrito no título do livro.

Incrível é como um livro tão curto, em comparação com outros do mesmo autor, pode ter tanto para ser dito acerca dele. Há quem diga que este é o melhor Saramago dos últimos dez anos, por exemplo aqui, mas pessoalmente sinto-me incapaz de corroborar ou descartar tal afirmação pelo simples facto de que não li todos os livros que o autor escreveu na última década, ou para ser mais preciso, não li nenhum, o que é uma afirmação perigosa da minha parte dado a declarada admiração que nutro pelo senhor de oitenta e cinco anos de idade, mas, enfim, não sendo uma parte maioritária da obra, cinco livros dão-me a força suficiente para arriscar tal admiração. Agora, mesmo não podendo dizer que este é o melhor dos últimos anos, posso dizer que este é um Saramago ao nível do seu melhor (Ensaio Sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis), onde o autor apresenta uma visão singular, bem mais leve e despreocupada, até despretenciosa se quiserem, sobre a vida numa metáfora simples, a viagem de um elefante, do que fez nos últimos tempos. Talvez este seja o livro indicado para calar os críticos que o acusam de escrever sempre a mesma coisa, este é um livro bem diferente do dos cegos, mantendo, no entanto, o discurso tão característico que me apaixonou.

A metáfora é simples e clara: a vida é um elefante em viagem desde Goa, onde nasceu, até Viena, onde há-de morrer. Na vida temos um cornaca que olha por nós e nos ensina coisas, temos um ou mais senhores com poder sobre nós, e temos a oportunidade de fazer milagres, dependendo da nossa vontade. A viagem é carregada de pessoas que a atravessam. Esta é, para mim, a interpretação não literal mais literal que se pode fazer com o livro amarelo. Não me aventuro em mais do que isto porque nem o adiantado da hora a que escrevo, nem a minha falta de capacidade para penetrar nos muitos recônditos que uma viagem elefantina pode ter, me deixam fazer mais do que isto.

Tal como a vida, uns passam e nem se nota que passaram, como as várias populações pelo caminho, outros serviram um propósito, como a tropa austríaca, outros partem e deixam saudades, como o capitão luso. É algo enervante neste livro, com a excepção do próprio elefante e de Subhro, o leitor não consegue criar laços com mais ninguém. Começa o rei por estar debaixo do olho que lê, não tarda o secretário a tomar o seu lugar e a tornar-se alvo da curiosidade do leitor, e quando nos apercebemos, já o capitão português está a desaparecer da trama sem mais voltar, o que é uma pena, diga-se em abono do sentimento, porque este homem era um verdadeiro justo e bom personagem que esvaziou a viagem quando dela saiu.

A nível estritamente literário, vou-me limitar aquilo onde me sinto mais à vontade, como se estritamente literário fosse alguma espécie de campo delimitado por linhas concretas, este livro é o que se esperaria de um dos maiores mestres da língua lusa. Nunca vi Saramago como um romancista puro, para mim a sua voz foi sempre mais própria de um senhor que conta histórias à lareira, ao anoitecer, para quem o quiser ouvir, e isso é uma característica que o próprio autor assume quando dispensa o fictício narrador de uma história para se assumir ele próprio como uma espécie de autor-narrador. Saramago distancia-se da norma de que alguém conta através de alguém uma história, ou seja, dispensa o narrador intermediário nas questões da narrativa, para ele mesmo contar directamente ao leitor a história de Salomão. Verdade que esta característica já se vinha notando desde sempre nos seus livros, mas está especialmente clara neste último.

Há um sem número de episódios que marcam a viagem, a do livro, agora, como já disse, refiro-me apenas ao livro e não a elações que dele tirei. O homem perdido no nevoeiro será talvez a mais importante, o homem que se salva graças ao grito de Salomão que mais ninguém foi capaz de ouvir só para depois desaparecer com um “Plof” (extracto desse episódio aqui). Há o milagre que não o foi em Pádua, há o milagre que foi-o sem o ser ao chegar a Veneza. E há personagens marcantes para além do pobre cornaca e do seu elefante, refiro-me em especial e com carinho declarado pelo cavaleiro português que lia romances de cavalaria e que se queria tornar num cavaleiro de romance. Azar o dele, porque isto, afinal, é um conto.

Alongo-me já, alongar-me-ia muito mais se me sentisse capaz de o fazer, não em resistência, mas em arte para tal. Este livro será alvo de muita atenção em futuro próximo por muita gente, não tenho dúvidas, tal como não tenho dúvidas que quase todos poderão dizer muito mais e muito mais acertadamente do que aquilo que eu disse.

A Viagem do Elefante dificilmente chegará ao patamar de importância para os seus leitores que o Ensaio Sobre a Cegueira chegou, não por ser um livro menor mas por ser um livro assumidamente menos marcante (a violência física e psicológica no ensaio marca bem mais facilmente que um divertido conto sobre uma viagem internacional de um paquiderme) e mais conformado, se assim se pode dizer, com a vida e as suas inevitabilidades. No entanto, A Viagem do Elefante está para a literatura portuguesa como um Stradivarius está para os violinos. É um livro practicamente perfeito. E inesquecível.

Morte em Veneza

November 8th, 2008 by Tim James Booth

A beleza gera constrangimento, pensou Aschenbach, que se meteu a aprofundar este pensamento, buscando o porquê.

- Thomas Mann, Morte em Veneza

Mínimos InstantesMais um escritor alemão e mais um Nobel nesta casa, desta vez é Thomas Mann quem toma a minha atenção com uma das suas obras mais reconhecidas, Morte em Veneza. Livro curto que se lê com gosto practicamente de uma vez e repleto de possíveis interpretações e significados.

Gustav von Aschenbach, que tinha acabado de acrescentar o von no seu quinquagésimo aniversário, símbolo de nobreza, é um consagrado autor alemão classicista e formal, que vive na sua rotina organizada em Munique. Subitamente, após um passeio no parque e durante um encontro com um estranho homem ruivo sente uma incontrolável vontade de viajar. Parte primeiro para Pola mas onde imediatamente se apercebe do erro do seu destino e segue para Veneza, a cidade amada.  Chega à cidade onde é conduzido por um gondoleiro que contra as suas ordens o leva directamente ao Hotel onde Aschenbach vai ficar hospedado. Apesar de contrariado e até um pouco temoroso pela figura, o ilustre alemão não se consegue deixar de sentir fascinado pela figura do homem que conduz a gondola, que mais tarde vem a descobrir ser o único homem sem licença para o fazer em Veneza. Instala-se então no hotel onde vê pela primeira vez a família polaca, duas irmãs que vestiam como se fossem freiras, e o jovem Tadzio que, aos olhos de Gustav, encarna o ideal da Beleza. Aschenbach fica imediatamente fascinado com o pequeno polaco e desde aí vai persegui-lo com o seu olhar admirador, mesmo quando a ameça de uma epidemia de cólera se abate sobre a cidade, até, literalmente, à morte.

Este é um romance múltiplo de interpretações, como já o disse. Talvez a maneira mais linear de o ler seja a sedução da intelectualidade pela beleza e a constante procura do artista pelo belo. Não está de todo errado, mas temo que seja uma interpretação demasiado simplista deste livro. Ou talvez seja a minha mania de esperar sempre mais do que aquilo que por vezes os livros nos dão. Mas atentemos em alguns pormenores, como os vários homens ruivos que causam em Aschenbach reacções sempre inesperadas. O primeiro lança-o num ímpeto de viajar; o segundo, o gondoleiro, dobra-lhe a vontade; o último, o músico, fá-lo apreciar a arte de uma maneira popular que o anterior escritor dificilmente conseguiria. Quem são estes três homens, todos ruivos, que perseguem o autor? É algo a que não sei responder mas que não consegui deixar de reparar durante a leitura. Há ainda o grito que Mann lança, o grito da liberdade de escolha sexual, ou não fosse no seu livro o autor apaixonar-se por um rapaz. É preciso ter em conta que em 1912 ainda a homossexualidade era considerada, pela maioria das pessoas, como um desvio à normalidade. Muitos se juntam na interpretação que Mann escrevia para exorcizar a sua própria homossexualidade retraída. O que não passam, é claro, de suposições. O que na verdade se sente neste livro é um despudor em relação a esta questão que na altura em que pela primeira vez foi publicado causou, certamente, incómodo. Mann apresenta esta história como se nada de anormal contivesse e não dedica nem uma linha a explicar o aparente engano que Aschebach tem. E foi uma boa decisão.

Mas mesmo com todas estas possíveis interpretações, o que prevalece do romance é mesmo a ideia mais imediata, a tal busca constante da beleza pela arte. É quase um ensaio figurativo sobre isto mesmo: um artista é capaz de morrer pela beleza e sente-se pequeno quando se vê incapaz de reproduzir, como Aschebach no livro, e meramente enaltecer a perfeição. Esta é uma alegoria perfeita da constante busca pela perfeição e também do constante falhanço.

É com pena que, ao nível da linguagem, não encontro nada digno de nota. Começo a aperceber-me que talvez seja uma característica da literatura germânica, já o mesmo acontecia com os livros de Hesse. Ressalvo, é claro, as perdas naturais da tradução, mas julgo inconsciente da minha parte apenas culpar os tradutores. A verdade é que Portugal é um país de poetas que procuram sempre o máximo da linguagem enquanto que a Alemanha é um país de engenheiros que querem o trabalho feito com eficácia. Assim é a escrita de Mann, clara, concisa, detalhada. É também desprovida de beleza e experimentação mas não se pode pedir tudo. Já temos neste pequeno livro muito mais do que as páginas nos apresentam. É sem dúvida uma obra a recorrer por mais do que uma vez.

Mínimos Instantes

November 7th, 2008 by Tim James Booth

Sou eu que vos escrevo, Ninguém.

- Paulo Afonso Ramos, “Carta de Ninguém” in Mínimos Instantes

Mínimos InstantesMínimos Instantes é o primeiro título em prosa que Paulo Afonso Ramos edita. Na verdade, o poeta não se conseguiu descolar da designação de poeta, e nem quer, por isso mesmo apelida este tipo de textos de “prosa poética”. Escusado é dizer, porque certamente já depreenderam pelo tom da minha escrita, que é uma designação que acho incorrecta, pelo simples facto de um texto, desde que de literatura se esteja a falar, ser sempre poético. Se por poético entendermos o que quer que seja que force o leitor a dobrar-se não só sobre o conteúdo das palavras mas também sobre as próprias palavras. Por isso, e permitam-me a leviandade, arquivarei este livro sobre a designação de crónicas, porque a designação de prosa poética é redundante.

Encontramos em Mínimos Instantes trinta e nove pequenos textos, mínimos se quisermos pedir emprestado o termo ao título, em que o autor discorre sobre, essencialmente, emoções. Talvez por isso se queira associar a palavra poesia a este livro, porque o seu conteúdo se aproxima mais, sem dúvida, daquilo que normalmente se escreve em verso e serão os seus apreciadores os que mais benificiarão da leitura deste livro.

Talvez o maior erro seja a organização das crónicas. Ao ler mais do que uma de seguida, fica-se com a ideia de que se está sempre a ler a mesma coisa porque os temas que o autor aborda são muito próximos todos eles - amor, perda, saudade, dor, amizade - e não poucas vezes são abordados por vários textos. O erro não será tanto de Paulo Afonso Ramos mas da disposição das crónicas, talvez com outra composição esta sensação desaparecesse.

O grande erro do autor, talvez único, foi em não confiar na força das palavras e preferir reforça-las com o uso e abuso de sinais de pontuação. As reticências e pontos de exclamação abundam neste livro e carregam um peso pesado de mais para meras pausas e entoações. Considero isto um erro essencialmente por duas razões: a primeira, mais óbvia, é que desvia a atenção do leitor da palavra para a maneira como deve ser lida, exemplifico, se escrever “Olá!” em vez de “Olá.” o primeiro leitor tentará descobrir mais do que a simples saudação que lá está escrita, questionando-se na razão do ponto de exclamação em vez da palavra quando o que se quer não é mais do que saudar simplesmente; a outra é precisamente cair no erro de forçar o leitor a dar mais significado ao que está escrito por forçar uma reacção ao sinal de pontuação, ou seja, na cabeça de quem lê passa qualquer coisa do género “isto deve ser mais do que aquilo que estou a perceber, tem um ponto de exclamação”, o que cria no leitor uma certa frustração e um sentimento de inferioridade que normalmente não deveria existir na relação leitor-livro. Ora estou certo que nada disto foi intenção de Paulo Afonso Ramos e apenas por isso mesmo digo que foi um erro, porque certamente o autor não se lembrou destas consequências nefastas que o abuso da pontuação pode acarretar.

Encontramos algumas histórias muito bem conseguidas, como “Carta de Ninguém e “A Menina do Bosque”, mas no geral fica a ideia de que se escreve muito sobre a mesma coisa o que acaba por prejudicar a leitura. Infelizmente algumas cenas também estão recheadas de lugares comuns, como o piquenique na praia e a prostituta no hotel, o que empobrece o livro que de outra forma seria bem conseguido dentro do género.

Os maiores pontos positivos são a constante alegria e esperança que o autor faz passar tão bem através das palavras, este livro é tão positivo que quase chega a enjoar. E não conseguimos deixar de nos sentir bem depois de lermos cada bocadinho que, aliás, como diz o poeta Xavier Zarco no prefácio, o torna ideal para uma leitura que se quer prazerosa e não demorada nos dias de hoje. Este é um livro ideal para se levar na mala e deleitar nos pequenos tempos mortos que surgem, nos mínimos instantes que se pode dedicar à leitura. E Paulo Afonso Ramos tem ainda muito para dar para além de simples mínimos instantes. Ficamos à espera.

O Arquipélago da Insónia

November 5th, 2008 by Tim James Booth

- Somos dois homens rapaz
a cerrar a tampa sobre mim e a afastar-se nas ervas para eu não acordar.

- António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia

O Arquipélago da InsóniaAo pousar o livro sobre a secretária ainda tremo quando me lembro que este exemplar em particular me foi entregue em mãos pelo autor, assinado e dedicado, no primeira (talvez única) oportunidade que tive para o conhecer. Ainda me ressoam nos ouvidos as palavras curtas e, apesar disso, tão longas que trocamos, o sorriso inesperado, o elogio sussurrado, a minha voz a tremer, as minhas mãos a tremer, o livro a tremer quando lho estendi, o livro seguro quando me devolveu, uns poucos minutos que vão ficar para sempre na minha memória e umas palavras que vão para sempre ficar escritas no meu livro, pela mão do génio Lobo Antunes, quem sabe próximo Nobel da Literatura português, já que é eterno candidato. E um conselho, um conselho que guardarei para sempre na sua voz sumida e pensada, “Nunca empreste livros”, nunca os empresto caro doutor.

Isto para dizer que ler este livro não estava no meu plano de leitura, como disse anteriormente, primeiro queria aprofundar o início de carreira de Lobo Antunes, no entanto este Arquipélago pediu independência da minha jurisdição e em boa hora o fez. Não sou, certamente, o homem indicado para comentar a obra deste senhor se nem sequer um quarto daquilo que escreveu, e estou a falar apenas da ficção, fui ainda capaz de ler, por essa razão evitarei comparações, ainda que inevitáveis, com as obras que antecederam este romance. Podia bem começar por aí, contestar a eterna designação de romance que nada quer dizer e que dificilmente encaixa neste livro, mas que encaixa porque o livro não entra em mais lado nenhum. Mas fujo ao que interessa.

O Arquipélago da Insónia é a mais recente obra de António Lobo Antunes. É uma visão plural da história de três gerações de uma família disfuncional (como tantas nas histórias de Lobo Antunes) dona de uma herdade algures no Ribatejo, desde o seu crescimento pelo braço do Avô e do seu amigo de infância que se tornou no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus netos. Disfuncional não chega para descrever esta família, se existe um avô com um filho que não respeita, “Idiota”,  um filho casado com uma ex-empregada da casa que era tomada pelo pai, como todas as outras, um neto que é autista e filho do ajudante de feitor, outro que simplesmente não quer ser, uma avó que tremia tanto como a chávena no pires e matava coelhos com uma paulada no cachaço, uma mulher que morreu em criança e a própria morte como prima da família. É isto o livro e nada mais, a história de uma família sem história, igual a tantas outras e diferente de todas, singular porque nasceu de uma mente singular e banal porque vemos em todos os membros do clã facetas nossas. Aparentemente Lobo Antunes aproxima-se cada vez mais do seu objectivo de encher os livros de nada, este é um livro carregado dele, de palavras que não existem, e que não precisam de existir para serem lidas, de história que não existe, e não precisa para ser conhecida, de morte que existe, e não precisava de existir para lá estar.

Durante dois terços do livro vemos a família pelo olhar do autista. E está brilhantemente bem composto. Ninguém sabe como funciona a mente de alguém assim, mas António Lobo Antunes não estará muito longe de um pensamento verdadeiro. Uma alucinante sucessão de tempos e datas e factos e histórias e imaginação e palavras soltas e tudo o mais o que pode passar por uma mente diferente. Talvez uma das mais intensas partes do livro será o último capítulo da parte II, em que o personagem se revela demasiado frágil para contar exactamente o que se passa, recorrendo inúmeras vezes a factos sobre cegonhas para se acalmar, entrecortando o discurso narrativo (como tantas vezes acontece ao longo do texto) com factos inúteis sobre as aves, até que atinge o clímax final, que não é mais do que um ponto temporário que se vai repetir ao longo de toda a terceira parte por diversas vezes vistas por diversas pessoas.

Por este olhar vemos nós grande parte da saga familiar e durante todo esse tempo o leitor não pode deixar de se sentir ligeiramente perdido, sem saber muito bem o que está a acontecer, e ao mesmo tempo, maravilhado. Mas claro, sendo Lobo Antunes, não podia ser uma só visão a contar-nos a história e no terço final sucedem-se os relatos diferentes das diferentes pessoas, e tudo, subitamente, começa a ficar tão claro e tão repentinamente claro que ficamos embasbacados com o génio do senhor que parecia escrever frases quase desconexas em tudo.

Como já noutros livros do autor acontecia,  o título, para mim, só faz sentido no fim. Mesmo nunca usando as palavras “arquipélago” ou “insónia” durante o texto, não é difícil chegar à conclusão de que todos são ilhas que vagueiam solitárias, presas na localização e no sangue, mas solitárias e acordadas pela noite, e pela morte, dentro. Lobo Antunes faz-nos um espelho feito de retratos, os retratos que estavam na sala da casa onde o autista via os parentes que rapidamente se transformavam em pessoas ao seu lado, um espelho onde vemos o nosso contínuo desejo de permanecer acordados. Eternamente acordados, perhaps?

Chego ao final desta recensão com um sentimento de incapacidade indescritível. Queria dizer tanto mais sobre este livro e nada mais me sai. Sinto-me pequeno, muito pequeno, perante um dos maiores nomes da literatura mundial e um dos maiores mestres da palavra portuguesa. Tal como me senti quando lhe apertei a mão há uma semana e pouco. Tal como me vou sentir sempre que tentar falar sobre ele ou a sua obra, ou sobre ambos, sendo ambos um, porque se confundem Lobo Antunes e os livros que escreveu, talvez mais do que o próprio autor desejaria.

É, sem dúvida, um livro inquieto de uma mente genial. Poderia escrever pela noite dentro e mesmo assim não seria capaz de reproduzir aquilo que o livro me disse sem, de facto, dizer nada. A verdade é que para um homem encher um livro de silêncio é muito fácil. O difícil é enchê-lo de silêncio cheio de palavras. Isso, António Lobo Antunes consegue-o magistralmente.

Poker

November 1st, 2008 by Tim James Booth

Simplesmente, não acredito que as coisas aconteçam por acaso. Há quase sempre uma ligação, há algo por trás de cada acontecimento e somos nós que temos de puxar esse fio se queremos encontrar o novelo.

- Gonçalo Coelho, Poker

PokerNovíssimo livro editado em Portugal, de um novíssimo autor que edita o seu primeiro volume, falo-vos de Poker. Viagem ao fundo da verdade de Gonçalo Coelho, um dos poucos policiais assumidamente policiais escritos em português por portugueses. Isto mesmo considerando que o autor é tão universal quanto um homem pode ser, tendo vivido no Reino Unido, no Brasil e em Portugal, o que acaba por transparecer para esta história de estreia.

O género policial, apesar de ter grandes tradições noutros países, especialmente nos EUA, não tem grandes raízes em Portugal. Os números são baixos tanto de autores como de leitores dedicados ao género. Claro, todos lemos Agatha Christie uma vez na vida, mas daí a sermos fãs de literatura policial vai um bom pedaço. Eu próprio não sou um grande apreciador do género e admito que daí possam vir alguns preconceitos contra esta história. Mas adianto-me.

Poker é uma alucinante sucessão de acontecimentos nos mais variados pontos do globo, especialmente no início e no final do livro. Começamos em S. Francisco e imediatamente saltamos para o Porto e depois para o Brasil, e depois para alto mar, e depois para Londres e Munique, a acção é, portanto, mais do que viajada. É a história de um economista português que se vê arrastado por uma repórter de investigação brasileira para a pista do assassinato de um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. Pelo meio encontram uma quadrilha familiar de bons malandros que vive num navio e ainda temos tempo de assistir à primeira parte do jogo inaugural do campeonato do mundo de futebol de 2006, na Alemanha. Estes são os explosivos ingredientes para um policial fora dos trâmites dos clássicos mas, infelizmente, preso às fórmulas recorrentes dos mais recentes.

Nota-se, claramente, que este é um primeiro romance. E, neste caso, é um ponto a desfavor da obra. Há uma falta de consistência nítida e uma evolução clara no estilo e na qualidade da escrita ao longo do livro. Os primeiros capítulos são fracos, como se o autor ainda estivesse um pouco à espera de ver o que saía dali, em comparação com os últimos, mais maduros, mais seguros de si literáriamente, mas, infelizmente com um conteúdo inferior. Ou seja, o livro acaba por se balançar, nos primeiros capítulos temos alguma falta de experiência do autor compensada com o mistério de abertura da trama (que poderia subir muito em qualidade se no final do trabalho estes primeiros capítulos tivessem sido reescritos para concordar com o resto do sabor do livro), enquanto que nos últimos a prosa amadurecida perde pelo pobre desenrolar dos acontecimentos, na minha opinião, que a história sofre.

Há também momentos que não fazem muito sentido, dois em especial, que custam a entrar na cabeça - nomeadamente a mensagem que o cadáver de Bill Maxwell transmite a Vítor, indicando-lhe a 9ª Sinfonia de Beethoven, extremamente forçado e soando a copycat de O Código DaVinci; e a rápida mudança de comportamento que o bando de bandidos alemães tem em relação aos seus prisioneiros, mesmo tendo em conta o desenrolar da história.

Julgo ainda que Gonçalo Coelho comete um erro crasso ao fazer a associação final, que não vos vou revelar, leiam e discordem comigo depois. Apenas digo que associa a uma história mais ou menos leviana, no sentido em que não tem mais implicações do que nela própria, um tema de importância mundial. Tudo muito bem e de acordo se não desse a ideia de que foi algo que o autor se lembrou à última hora para dar profundidade ao livro. Parece que o tema é tratado como se fosse uma boia de salvamento moral para a história e isso desagrada. Talvez se esse tema se notasse como pano de fundo, em vez do negócio de vinhos, tudo fizesse mais sentido.

Poker não é uma obra-prima, nem mesmo dentro do género da literatura policial. Está longe disso. Assenta em fórmulas reconhecidamente fracas de policiais modernos sem ter como auxiliar os temas polémicos. Essa é a sua fraqueza. No entanto, Gonçalo Coelho revela uma certa mestria na escrita corrida e simplista, sem adornos desnecessários, também no transporte da oralidade para os diálogos e da paixão pelas viagens que é definitivamente contagiante. Talvez, numa próxima aventura, o autor experimente algo assim, quem sabe. Infelizmente, Gonçalo Coelho não mostra aqui a sua verdadeira arte, que conheço de outras paragens, e talvez por isso este livro devesse ter passado mais alguns anos na gaveta. Melhor do que isso até seria se tivesse passado por um processo de retratamento para se enquadrar melhor com o actual estilo e capacidade do autor. Assim fica um amargo na boca do leitor quando acaba. Espero que isso não custe a Gonçalo Coelho na próxima obra que será, certamente, mais digna da sua verdadeira capacidade.

Gabriela, Cravo e Canela

October 31st, 2008 by Tim James Booth

- O amor não se prova, nem se mede. É como Gabriela. Existe, isso basta - falou João Fulgêncio. - O fato de não se compreender ou explicar uma coisa não acaba com ela. Nada sei das estrelas, mas as vejo no céu, são a beleza da noite.

- Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela

Gabriela, Cravo e CanelaTardava a aparecer um livro vindo do Brasil por aqui e dificilmente poderia a estreia ser pelas palavras de um autor melhor do que Jorge Amado. A minha admiração por este senhor é pública e, como tal, aviso que provavelmente as minhas palavras serão deturpadas do meu cinismo habitual. Tanto melhor, não sou crítico com responsabilidades, sou, antes de mais, leitor apaixonado. Apaixonado por Jorge Amado, saudoso Jorge Amado. E, agora, também apaixonado por Gabriela. Mas quem não é?

Gabriela, Cravo e Canela será, talvez, mais famosa à maior parte dos ouvidos como a primeira telenovela brasileira a estrear em Portugal, é uma das mais reconhecidas obras do autor baiano. Jorge Amado é, na verdade, um dos grandes repositores de histórias da televisão brasileira, muitos dos seus livros foram adaptados aos mais diversos formatos televisivos, lembro-me, por exemplo, de Dona Flôr e seus dois Maridos e de Mar Morto. Talvez por isso se associem os seus livros a literatura de cordel ou folhetim, contando romances simples capazes de entreter mas de nada mais. É claro que isto é uma visão simplista e de quem, obviamente, nunca leu uma linha sequer de Jorge Amado. Ele, e a sua obra, são muito mais do que isso.

Ilhéus é o centro brasileiro da produção do Cacau, uma espécie de novo ouro na década de vinte, capaz de enriquecer qualquer um com força suficiente para tomar conta de terra. Ilhéus cresceu à força da catana e da pistola dos jagunços, a mando dos coronéis que eram autoridades incontestadas na região. A sua face legal era o Coronel Ramiro Bastos, cuja família e amigos controlavam todos os cargos políticos oficiais ligados à cidade. Ilhéus estava próspera mas, ao mesmo tempo, parada na rápida evolução que podia tomar. Era apontado o motivo principal a falta de um porto marítimo capaz de albergar os grandes cargueiros para exportação de cacau - toda a exportação tinha de ser feita pela capital, a Bahia, onde ficava todo o dinheiro dos impostos e todo o dinheiro que a tripulação dos cargueiros traria. O Coronel Bastos, apesar dos protestos dos exploradores, nada fazia quanto a isso, alegava a falta de disponibilidade do governo federal quando na realidade tinha era compromissos de compadrio com o governador baiano. Ramiro governava sem oposição. Mas chega então um poderoso exportador à cidade, Mundinho Falcão, vindo do Rio com família em lugares cimeiros do governo brasileiro. Mundinho percebe que o maior entrava para o seu negócio é, precisamente, a falta de um porto marítimo para substituir a velha barra. Ramiro não gostou de ser desafiado e os seus opositores, normalmente calados, encontram em Mundinho um homem com força suficiente para fazer frente ao velho coronel. Inicia-se assim a mais feroz corrida eleitoral que Ilhéus havia visto, com jornais queimados, assassinatos falhados, a velha geração que dominava à força de Jagunços e impedia o progresso contra a nova que via o desenvolvimento da cidade como algo essencial. O velho Coronel Ramiro representava a velha governação e Mundinho era a face da mudança.

Neutro a tudo isto assiste o árabe Nacib, árabe quase só de apelido, deixou a Síria quando tinha apenas três anos, dono do bar Vesúvio onde pessoas de ambos os lados da barricada paravam para tomar o aperitivo e conversar. Nacib viu-se repentinamente sem cozinheira, quando a velha mulher que o ajudava parte, sem aviso sério, para viver com o filho. Nessa altura aparece Gabriela, vinda do Sertão, coberta de pó e sujeira suficiente para inicialmente esconder a sua beleza tão natural e inexplicável como ela própria. Não só era a mulher mais bonita da cidade como era dona de uma mão de fada na cozinha, os seus cozinhados tornaram-se lendários e, quando contratada, fez os lucros do bar disparar com a sua comida e, principalmente, a sua presença que atraía e colava homens de toda a cidade a beber no bar do árabe. Escusado será dizer que a paixão eventualmente brotou do peito de Nacib e da morena e foi a mais marcada história de amor que aquela cidade alguma vez viu.

Isto é a história, comprida como se percebe pela sinopse, mais densa do que se possa pensar e com um enredo mais complexo do que possa parecer. As personagens são mais que muitas, todas elas se relacionam, é a verdadeira história de uma cidade do interior. Gabriela não é mais do que a cor, cor da canela e cheiro do cravo, de um livro profundamente social. Ao contrário do que se possa pensar, a meu ver, o romance de Nacib e Gabriela é apenas uma pequena parte do verdadeiro sumo do romance. Há dezenas de histórias paralelas, quase todas de amor ou sexo, com tanta substância como a de Gabriela e do árabe, mas nenhuma com o cheiro do cravo, e talvez por isso tenha a doce sertaneja tomado conta do livro. É, na verdade, uma mulher apaixonante, mas tão extraordináriamente possível e tão física que o leitor, tal como os outros frequentadores do bar, se apaixona pela figura inatingível da mulher.

Jorge Amado concentra-se em registar um retrato marcado de uma época próspera mas terrível do Brasil e é talvez esse o seu maior objectivo, mais do que mostrar Gabriela ao mundo, que ela não foi feita para ser escondida em cozinha. Consegue-o de uma forma estupenda, um relato que poderia tornar-se enfadonho é galanteado com uma animada aventura carregada de acção, política, intriga, romance e beleza. E a parte da beleza, não me canso de frisar isto, é toda dada por Gabriela.

É de notar a capacidade que o autor tem de carregar a oralidade de uma forma tão natural nas suas palavras. Parece, a certa altura, que estamos também nós a ouvir e a discutir com Nacib e João Fulgêncio, ou que estamos a ouvir o Doutor a contar uma das suas histórias. Li, algures, que Jorge Amado foi a voz escrita da Bahia, já não sei onde. Não encontrei, até hoje, frase mais acertada e sucinta de descrever todo o estilo e talento do escritor baiano. Por isso tomo essas palavras e torno-as a dizer como minhas, Jorge Amado é capaz de cantar a alma Bahiana. Também nós, ao ler este fantástico livro, nos sentimos seduzidos por esta canção.

Paraíso à Chuva

October 24th, 2008 by Tim James Booth

Biguechite, seria bruxa o raio da mulher? Como era possível? Até sabia o número da suite, coisa que ele, que a usou e bem usada, nem deitou sentido… Possuía, de certeza, poderes mediúnicos Mariana. E tinha razão: não adiantava negar, pois tudo o que dissesse poderia, como nos filmes policiais, ser usado mais tarde contra ele.

- João Carlos Brito, Paraíso à Chuva

Paraíso à ChuvaO que se pode esperar de um livro que tem como premissa um paraíso perdido de guarda-chuvas? Verdade, o que João Carlos Brito nos começa por apresentar é um destino com o qual todos os guarda-chuvas sonham, um sítio para o qual serão eternamente remetidos em paz e harmonia entregues ao simples prazer da chuva. Ora tudo o que se podia imaginar de um livro com este enredo provavelmente está errado, porque Paraíso à Chuva é muito mais do que isso. Ora vejamos então.

Há, efectivamente, três guarda-chuvas como personagens principais, Gil, o topo de gama, Lora, a sua apaixonada e Tomé, o velho que conta as histórias e lendas. Gil leva-nos por entre deambulações mais ou menos sexuais, como é o sexo entre guarda-chuvas eu não quero imaginar, a descobrir o intrincado trama que existe entre o casal dono de uma loja de confecções, um antigo emigrante nos EUA, uma família de médicos, uma empregada vidente e o seu irmão presidente de junta, um ladrão, um morto e mais um sem fim de outros nomes que se interligam todos de alguma forma.

No centro do relato está Maria de Lurdes, empregada do casal Ferreira, que anda enrolada com o ladrão que lhes assalta a loja e acidentalmente mata o guarda-nocturno e é também a mãe verdadeira da filha adoptiva do casal. Maria de Lurdes é também uma espécie de médium que atinge o portal de uma maneira no mínimo especial, digamos divertida, digamos orgásmica. Isso mesmo. Todos estes ingredientes produzem um relato divertido que mistura o romance com o policial com a fantasia e o humor.

Verdade seja dita que não está aqui a grande revolução da literatura portuguesa. Mais verdade seja dita que isso também não é objectivo nem sequer procurado pelo autor. O que é pretendido é um relato assumidamente divertido e irónico numa linguagem quase oral de quem conta uma história, e isso João Carlos Brito consegue perfeitamente. Acho, no entanto, que algumas das características próprias do autor deveriam ser repensadas, nomeadamente a tradução fonética para português de expressões estrangeiras. Explico com o excerto, onde se leria normalmente Big Shit, está escrito “Biguechite”, e o mesmo acontece com inúmeras expressões ao longo do livro. O objectivo é claro, ironizar o uso de expressões não portuguesas mas penso que é exagerado devido ao elevado número de vezes que a técnica é repetida. De louvar a coerência do autor, mas isso por vezes dificultava a leitura, que era agradável e corrida tirando estes percalços.

É definitivamente uma história divertida que não se leva nem pretende ser levada a uma análise extensa de significados e escritas, mas que poderia, não é difícil de imaginar um país corrupto em que todos conhecem todos e todos usam todos para fazerem aquilo que querem como revela a complicada estrutura de relacionamento dos personagens, mas isso é desviar o livro da intenção original, mostrar que afinal, não há paraíso perdido, nem sequer para os pobres guarda-chuvas. Melhor paraíso que este é difícil afinal, isto é claro, se conhecermos as pessoas certas.

É um livro de fácil leitura, recuso-me a classificar como literatura light porque não acredito nesse conceito - ou é ou não é, ponto - que se lê com agrado mas que não vai permanecer como obra maior da literatura portuguesa. Serviu perfeitamente o seu propósito, o de entreter a mente como pausa entre os pesados tomos da literatura mundial que tenho aqui à volta que, diga-se em abono da verdade, por vezes podem ser bem aborrecidos. Coisa que este Paraíso à Chuva, definitivamente, não é.

Prémio Dardos

October 24th, 2008 by Tim James Booth

Prémio DardosCara Once, muito obrigado pela nomeação, desvio aqui do teor normal deste blog apenas para noticiar que aqui a casa descreterizada foi nomeada para o Prémio Dardos, ora o que é, é uma distinção que os bloggers dão entre si àqueles que se distinguem ao transmitir valores pessoais, éticos, culturais, e, no meu caso, provavelmente literários.

Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1. Exibir a distinta imagem;
2. Linkar o blogue pelo qual recebeu o prémio;
3. Escolher 15 outros blogues a que entregar o Prémio Dardos.

Ora os escolhidos são, sem ordem em especial,

A Biblioteca de Jacinto;
A Curva da Estrada
A única real tradição viva
Adrian&Pandora
Antologia do esquecimento
Bibliotecário de Babel
casadeosso
Da literatura
Húmus
Intertextualidades
Noite.de.Mel
o absurdo
Registos TC
Serendipity
Uma Especie de Mim

E claro que qualquer um dos que estão ali no blogroll ao lado.